Quando falamos sobre escola, o óbvio precisa ser dito

Em minha experiência como consultora pedagógica já vivenciei situações diversas, desde as mais constrangedoras às mais gratificantes. Confesso que foi um período de muito enriquecimento do meu repertório de experiências e aprimoramento de vivências em escolas, gerando crescimento pessoal e profissional. Durante esse tempo, tive uma impressão muito curiosa sobre a percepção de educadores sobre determinados temas: muitas informações que eram óbvias para mim não fazia o menor sentido para eles até que fossem ditas. 

Uma experiência marcante em minha trajetória representa um pouco disto: após visitar uma escola em que todos os funcionários e alunos estavam extremamente abalados por causa de um caso de suicídio, conversei com alguns responsáveis e perguntei qual era o perfil das pessoas daquela instituição para que eu pudesse fazer um momento de acolhimento e formação. Fiquei surpresa com a maneira que os educadores falavam e agiam com os alunos, suas posturas eram tão contraditórias, às vezes até um pouco absurdas, em relação ao discurso que propagavam que eu me senti desafiada a ter que dizer algo para aquele grupo, que para mim era óbvio: “seus gestos, palavras e posturas influenciam a maneira como os alunos se sentem, participam de suas aulas e interagem neste ambiente e fora dele também”. Voltei desse encontro e tudo que eu conseguia pensar era que essas pessoas precisavam saber da influência que tinham na vida daqueles que por sua sala passavam. Me peguei pensando em vários momentos que isso era muito óbvio e que todos me achariam ridícula por levar isso para o diálogo depois de um momento tão trágico, mas eu não conseguia pensar em nada mais significativo naquele contexto.

Respirei fundo e após acolher todas as falas no encontro, pedi para dialogarmos sobre um assunto que eles deveriam estar cansados de saber, mas que poderia ajudar naquele momento. Começamos a conversar sobre a influência do educador a partir de depoimentos e falas de jovens do ensino médio sobre como os professores marcaram fortemente a vida deles, desde uma menina que decidiu escrever poesia porque a professora disse que ela tinha jeito para isso, ao aluno que lembrava mais da matéria por causa do professor do que do conteúdo, até aqueles que começaram a participar das aulas porque alguém finalmente acreditou que eles poderiam fazer mais do que depredar a escola. Foi um momento muito gostoso e, para minha surpresa, embora houvessem educadores vendo muito sentido porque viviam aquilo que estava sendo falado, muitos outros olhavam com uma feição curiosa, como se perguntassem para si mesmo: “será que eu posso fazer isso tudo mesmo? ”. Saí de lá convencida de que, embora parecesse óbvio para mim e para algumas pessoas no encontro, boa parte daqueles profissionais, educadores e funcionários que ocupavam diferentes funções, não faziam ideia de que suas palavras, gestos e ações tinham impacto na vida daqueles alunos.

Tive essa mesma impressão em vários outros encontros e formações, como quando disse que nós adultos também produzimos novos neurônios, lembro de ter ouvido comentários como “não foi isso que nos ensinaram na escola”; em outra ocasião, conversei com um grupo de educadores sobre o quanto a história de vida da criança e do adolescente tem impacto em sua aprendizagem, e eles se surpreenderam com o quanto a falta de afeto e relacionamentos de confiança podem afastar uma pessoa dos objetivos da escola; lembro de quando me reuni com pais em uma escola de uma comunidade carente para dizer que eles não precisavam saber ler e escrever para incentivar seus filhos a estudarem, quando eles descobriram o que poderiam fazer, eles me perguntaram surpresos: “por que ninguém disse isso antes?”; e até mesmo ontem pude lembrar disso, quando cheguei em casa e recebi uma postagem que dizia: “Eu dou aula à galera de ensino médio há uns 8 anos, e só agora vim perceber o quão carentes nossos adolescentes são de serem ouvidos”. Em outros momentos eu diria para mim mesma: “Nossa, sério que ele não sabia disso?”. Hoje simplesmente sorrio e penso comigo mesma como é bom que agora ele sabe e isso faz diferença na vida dele.

No fim das contas, podemos aprovar novas leis, diretrizes, novas versões de nossa BNCC, mas se não formos sensíveis para perceber como nossas relações influenciam no aprendizado e em nosso desenvolvimento geral, não caminharemos muitos passos além de onde estamos. Você que trabalha com escolas, propague este grande segredo: conhecimento só faz sentido se for compartilhado e dialogado, o óbvio precisa ser dito, e, por incrível que pareça, ele pode mudar radicalmente a vida das pessoas.  

Publicado originalmente no Linkedin em 30 de abril de 2019

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