“Eu ensino assim há mais de 20 anos e sempre deu certo”: caminhos para lidar com diferenças entre gerações de educadores

É muito comum ao entrarmos em contato com escolas, sobretudo públicas, ouvirmos de docentes mais antigos frases como “Na minha época não era assim e funcionou”, “Faço isso há mais de 20 anos, por que eu faria diferente agora?”, “Essas mudanças não fazem sentido, antigamente era mais simples e as pessoas aprendiam da mesma forma”, e assim por diante. Talvez não seja difícil compreender o motivo dessa angústia em formato de desabafo em muitos educadores que trazem experiências ricas e significativas ao longo de suas carreiras. As mudanças, não apenas na educação, mas em muitas áreas, para não dizer todas, vieram como uma tromba d’água junto com o século XXI, gerando muitas inseguranças e defesas que, quando não acolhidas, analisadas e repensadas, acabam sendo perigosas e muito desconfortáveis para o processo educativo de maneira geral.

Em menos de um quarto de século vivenciamos transformações nunca antes imaginadas ou experimentadas em larga escala pela humanidade, desde avanços tecnológicos na medicina à inovação de aparelhos eletrônicos, fortalecimento de redes sociais, ferramentas de pesquisas e investigações científicas, por exemplo. Embora saibamos que nossa caminhada histórica não ocorre linearmente em direção ao progresso, ainda que seja o nosso desejo, podemos afirmar com alguma certeza que caminhos em direção a mudanças, pequenas, médias e grandes, lentas ou abruptas, são inevitáveis e vão acontecer com ou sem o nosso consentimento. Todas essas transformações, muitas delas revolucionárias, mudaram e mudam significativamente nossa maneira de pensar, interagir, sentir, se comportar e até mesmo planejar o nosso futuro. Hoje, nossas necessidades são outras, muitas delas ainda desconhecidas. Novas descobertas científicas nos convidam o tempo inteiro a refletir sobre nossas certezas e sobre as expectativas de para onde o mundo está caminhando, ou mesmo nós de maneira individual. Muitos questionam profissões que deixarão de existir, outras que precisarão ser repensadas para continuar existindo, qual será o formato de sociedade daqui a 50 anos, e assim caminhamos tentando encontrar caminhos que façam algum sentido dentro das nossas experiências.

Diante desse cenário, honestamente, não considero absurdo ouvir os comentários do início do texto de muitos docentes, pois há não mais de 50 anos aprendíamos na escola como o “mundo funcionava” em suas diferentes áreas de conhecimento certos de que nada poderia ser muito diferente dali para frente. Não aprendemos a duvidar do que estavam nos livros, nem a lidar com as incertezas. Custamos a entender, e ainda custa para muitos, que somos parte de uma mesma espécie, embora sejamos diferentes enquanto indivíduos, com muitas histórias, traumas, experiências e traços que nos tornam únicos, nem piores e nem melhores. Aprender a respeitar as diferenças? Para quem ou para que isso era importante em outros tempos? De maneira alguma me proponho com estes questionamentos a desmerecer séculos ou décadas passadas, que remontam outro contexto e espaço. A ideia é justamente olharmos para o passado compreendendo que embora naquele tempo fizesse sentido, neste não faz mais. E chegar a esta compreensão muitas vezes pode ser doloroso, custoso e trabalhoso.

As últimas gerações nasceram em plena mudança constante e acostumados a elas, mas não podemos exigir que as gerações mais antigas tenham naturalmente essa mesma abertura. Não significa que devemos nos conformar com o que está posto, esperando passivamente que outras cabeças ocupem diferentes espaços.

Todos precisam acompanhar essas mudanças?

Possivelmente sim, mas o caminho talvez não seja a desvalorização e o confronto pelo confronto, mas o investimento na reflexão de perguntas que plantem sementes diferentes, para que possamos colher frutos diferentes em nossas escolas. “Tudo bem se naquela época era assim, mas como estamos hoje? O mundo era dessa mesma forma há alguns anos? Será que é só na educação? Se tudo mudasse, menos a educação, quais seriam os impactos disto? Da mesma forma que existiam benefícios antes, quais benefícios temos com estas mudanças agora? ”. Essas perguntas podem abrir espaços construtivos quando encontramos com esses docentes, permitindo trocas e análises que ficam completamente apagadas quando tentamos brigar ou impor nossas verdades, que nem sabemos até quando serão tão verdadeiras assim.

O perfil de docente para a educação no século XXI é muito mais de um orientador, que norteia e aponta caminhos para o aprendizado de maneira que os alunos possam transformar informações em conhecimentos; e de mediador de todo esse processo, garantindo que as informações relevantes sejam consideradas e aplicadas dentro de diferentes contextos. A concepção de multi e interdisciplinaridade tem cada vez ganhado mais espaço em processos educativos, tornando palpáveis saberes que Edgar Morin muito bem colocou para a educação do século XXI, considerando o paradigma da complexidade. Nunca foi tão real e vista como necessária uma frase dita por Plutarco, quando nem sonhávamos com o formato de educação que temos hoje: “A mente é um fogo a ser aceso, não um vaso a ser preenchido”. E isso precisa ser considerado também quando falamos em formação de docentes, ou seja, é preciso experimentar esse perfil também nos espaços formativos, onde queremos construir ambientes de trocas e transformações em meio a pluralidade de educadores.

Conviver entre diferentes gerações é e sempre será um grande desafio. Estar aberto ao novo e incentivar essa abertura no alicerce de espaços de formação, reconhecendo que a realidade é complexa e mutável, pode nos manter atentos para aprender novidades e sermos flexíveis retendo o que é bom e aplicável dentro desse processo.

Publicado originalmente no Linkedin em 7 de maio de 2019.

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