Precisamos falar sobre a saúde emocional do docente

Estamos no mês do Setembro Amarelo, mês de prevenção mundial ao suicídio e promoção de saúde mental. Gostaria de aproveitar o clima de sensibilização coletiva em que as redes sociais se encontram para falar sobre algo fundamental no cenário atual: a saúde mental dos docentes.

Antes da pandemia, os dados já não eram promissores

Ensinar é, sem dúvida, uma das profissões mais bonitas que existe! Possibilitar aprendizagem, ser protagonista de transformações importantes na vida de uma pessoa é de incontestável valor e caro para construção da sociedade que desejamos ter.

Por outro lado, há um reconhecimento de que ser docente é por si só causador de um nível elevado de estresse e isso influencia a saúde emocional deste profissional. O Burnout em profissionais de educação tem recebido crescente atenção em *pesquisas acadêmicas. Em uma rápida e simples pesquisa no Google Scholar, com um recorte dos últimos 4 anos com as palavras-chave “Burnout + educação”, foram encontrados 8.590 resultados.

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Além do Burnout, expresso por meio de exaustão emocional, despersonalização e falta de realização pessoal no trabalho, uma pesquisa com foco na saúde do educador brasileiro, realizada em 2018 com 5.000 profissionais de educação, encontrou que 66% já precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde, 68% sofrem com ansiedade e 28% têm ou teve depressão. Os problemas mais relatados foram estresse, dor de cabeça, insônia, dores nos membros e alergias.

Com a pandemia, como estamos?

Após a suspensão das aulas, em março de 2020, algumas instituições se propuseram a acompanhar os dados sobre a saúde mental do educador. O Instituto Península, por exemplo, mapeou o sentimento e percepção dos professores brasileiros em diferentes estágios do coronavírus no Brasil.

Recentemente foi publicada a terceira fase da pesquisa, mostrando que os professores continuam se sentindo ansiosos com o cenário atual. Na fase anterior, 32% se sentiam sobrecarregados, atualmente 53% se avaliam desta forma. Além disso, mais de 40% ainda relata se sentir cansado e estressado.

A maior preocupação do professor atualmente está sendo a saúde mental e física dos seus alunos, seguida da saúde física de sua própria família e sua saúde mental. Por fim, 1 a cada 3 profissionais da educação básica relata ter piorado práticas de atividades relacionadas ao lazer e cultura, condicionamento físico e qualidade do sono, indicando um sinal de alerta.

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No cenário atual, o que poderia ajudar a explicar esses sentimentos e comportamentos nos docentes?

De acordo com o Instituto Penínsulaa falta de experiência prévia com ensino remoto, baixa oferta de suporte emocional e treinamento on-line, infraestrutura de trabalho limitada e dificuldade para engajar os alunos poderiam apontar caminhos para pensarmos nas causas do sofrimento docente.

Acrescento, ainda, o fato de estarmos experienciando um ano atípico repleto de incertezas acerca de como ficarão as aulas no futuro, retorno ou não de atividades presenciais e priorização de habilidades e competências previstas na BNCC, criando um clima ansiogênico que não pode ser ignorado.

O exercício da docência, para além dos desafios colocados e independente do cenário pandêmico, requer uma grande capacidade de se relacionar com outras pessoas de forma construtiva, além de exigir uma gestão eficaz de suas próprias emoções e de outras pessoas, sendo desejável habilidades como regulação emocional, tolerância à frustração, resiliência, diálogo, entre outras. A pandemia colocou em evidência e urgência essas necessidades.

Precisamos olhar para estes dados com atenção, pensando em caminhos que considerem uma formação e cuidado integral ao profissional

Antes da pandemia, a formação integral do professor já era pauta de discussões em educação, incluindo o aspecto socioemocional. Nos últimos anos tem crescido o *interesse acadêmico pelo desenvolvimento emocional docente, compreendendo que seu desenvolvimento profissional está para além da dimensão exclusivamente cognitiva.

Já existem evidências* de que a promoção de habilidades socioemocionais no professor pode ser considerada fator de proteção à sua saúde mental no contexto profissional, além de estar relacionada a atitudes menos incoerentes e distantes relacionadas aos alunos, eficácia para lidar com situações desafiadoras, redução de comportamentos agressivos e melhoria no clima emocional e motivação para aprender. Isto é, investir no desenvolvimento de habilidades socioemocionais pode contribuir em diferentes aspectos com o equilíbrio profissional.

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Foto: Pexels

Ademais, sabemos que alguns conhecimentos e competências de base teórico prática relacionados ao exercício da atividade em si, especialmente no contexto remoto e de ensino híbrido, são necessários para auxiliar na diminuição de emoções como ansiedade e frustração.

São imensos os desafios envolvidos para uma formação integral docente que considere também a saúde emocional do educador, já considerada na proposta de revisão e atualização da Resolução CNE/CP nº 02/2015, referente às Diretrizes Curriculares Nacionais e Base Nacional Comum para a Formação Inicial e Continuada de Professores da Educação Básica.

Para não apenas identificar a necessidade de abordarmos o tema,preparei algumas dicas de iniciativas gratuitas que podem contribuir para o cuidado de quem educa em diferentes aspectos.

Saúde Emocional de A a Z

A Nova Escola, em parceria com a Fundação Tide Setubal e Fundação Lemman, inaugurou um espaço dedicado aos desafios emocionais enfrentados pelos professores durante a pandemia, com diversos conteúdos gratuitos relacionados a conhecimentos e práticas relacionadas as nossas emoções.

Serviços gratuitos de apoio psicológico

Ainda neste espaço criado pela Nova Escola, existe um compilado bem legal de iniciativas gratuitas de apoio psicológico focadas no cuidado com a saúde mental do educador.

Sites e blogs que abordam os desafios de aprendizado docente em uma perspectiva prática e disponibilizam materiais formativos para auxiliar educadores

Como colocado anteriormente, cuidar do nosso emocional em uma perspectiva integral, envolve também a compreensão de que nossos conhecimentos e necessidades afetam nossa saúde mental. Nesse sentido, aprimorar habilidades necessárias ao exercício da profissão pode auxiliar na regulação de emoções desconfortáveis geradas pelo desconhecido.

Existem várias iniciativas com conteúdos gratuitos a fim de promover aprendizado para o educador no contexto da pandemia, selecionei três que fornecem bastante material:

Centro de Inovação para Educação Brasileira (CIEB)

Para quem não conhece, o CIEB busca promover a inovação educacional na educação básica pública por meio da formulação de conceitos, desenvolvimento de protótipos e disseminação de conhecimentos e boas práticas relacionadas ao uso de tecnologia na educação.

Após a pandemia, eles se organizaram rapidamente para apoiar secretarias de educação e, consequentemente, educadores na garantia do direito à aprendizagem, reunindo materiais e ferramentas que podem ser úteis no contexto atual, incluindo estratégias práticas, informações sobre competências digitais, avaliações, entre outros materiais que estimulam a criatividade e oferecem subsídios para diminuição da ansiedade em relação ao aprendizado de novas tecnologias e metodologias ativas.

Porvir

O Porvir é uma plataforma de conteúdos sobre inovação educacional no Brasil e conta com uma aba específica com dicas e orientações práticas sobre como inovar na educação.

Por meio de Guias Temáticos, é possível encontrar uma série de conteúdos que podem acrescentar na sua forma de enxergar a educação, além de ter disponível documentos com orientações e sistematizações de práticas inovadoras, glossário de conceitos para entender inovação na educação e blog.

Instituto Reúna

O Instituto Reúna tem como foco contribuir com a coerência do sistema educacional. O site oferece uma gama de materiais focados em formação, material didático, currículo e avaliação, alinhados com a BNCC.

Um dos projetos recentes que merece destaque foi o Mapa de Focos da BNCC, criado para auxiliar na seleção de habilidades focais que poderão ser priorizadas para dar conta da conclusão do ano letivo neste cenário de pandemia. Sem dúvidas, uma excelente contribuição ao educador e às escolas para ajudar na organização e sistematização do restante do ano letivo.

Para finalizar esta reflexão, deixo uma dica da psicóloga e professora de Harvard Susan David, que sem dúvidas pode auxiliar na reflexão sobre a saúde emocional do docente:

“Não gaste energia lutando com suas emoções, aceite-as e enxergue possibilidades a partir delas. Permita que ela esteja no mesmo espaço que você sem ceder a ela. Para que isso seja possível precisamos de recursos emocionais básicos, como um vocabulário emocional variado”.

E ouso a acrescentar para o contexto deste artigo: para construir recursos emocionais básicos, precisamos de sensibilização para o tema, formação inicial e continuada que considere também este foco.

*Referências

ALZINA, R. B.; GONZÁLEZ, J. C. P.; NAVARRO, E. G. Inteligencia emocional en educación. Madrid: Sintesis, 2015. 340 p.

ANDRADE, C.; FRANCO, G. Inteligência emocional como fator protetor do burnout em Professores do 2.º e 3.º ciclos e secundário da RAM. International Journal of Developmental and Educational Psychology. INFAD. Revista de Psicología, Nº1-Vol.6, 2014. ISSN: 0214-9877. pp:417-426 417, 2014. DOI: https://doi.org/10.17060/ijodaep.2014.n1.v6.761.

ARANTES, M. M. Educação emocional integral: análise de uma proposta formativa continuada de estudantes e professores em uma escola pública de Pernambuco. Tese de doutorado, 2019.

CASASSUS, J. Fundamentos da educação emocional. 1. ed. Brasília: UNESCO; Liber Livro, 2009. 252 p.

PACHECO, N. E.; BERROCAL, P. F. Inteligencia emocional y educación. Editorial Grupo 5, 2015.

Artigo publicado originalmente no Linkedin.

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