O quanto escrever mexe com você?

O que escrever faz você sentir? Como é a sua relação com a escrita? Prazerosa, ansiogênica ou indiferente? Em algum momento já passou pela sua cabeça que escrever pode trazer benefícios emocionais reais oficiais para sua vida?

Pela minha sim, baseado nas minhas próprias experiências, mas descobri um mundo de experimentos que fortaleceram meu encanto por esse ato simples e poderoso que é escrever!

Foto: Pexels

Desde pequena tenho uma relação íntima com a escrita, não lembro exatamente a idade em que ganhei o primeiro diário da minha mãe, mas foi por volta dos 8 anos. Escrever se tornou minha principal estratégia de regulação emocional por muito tempo, me deixava aliviada de diferentes formas.

Escrevia sempre que meu corpo parecia não suportar uma situação ou emoção, quando algo doía tanto ou me alegrava tanto que não poderia continuar dentro de mim. Escrevia para curar amores platônicos na adolescência (Quem nunca?), diminuir a ansiedade em relação aos meus planos, para compartilhar comigo mesma o gostinho doce das vitórias ou os aprendizados árduos, até mesmo para amenizar frustrações públicas ou secretas.

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Cultivei o hábito de escrever sempre que me desse vontade, a maioria dos versos e palavras nunca cheguei a mostrar para ninguém. Quando minha mãe faleceu, ousaria dizer que escrever manteve minha sanidade mental por meses até eu conseguir elaborar a perda. Dentro da minha história de vida, escrever tem um espaço e afeto únicos em cada capítulo.

Alguns pesquisadores estudam os benefícios emocionais da escrita, como é o caso de James Pennebaker¹, professor da Universidade do Texas, que há mais de 30 anos realiza pesquisas relacionadas ao tema. De acordo com ele, pelo menos 300 estudos foram publicados desde a década de 1980 sobre o assunto.

BBC World Service - Health Check, James Pennebaker
Foto: BBC (James Pennebaker)

Bom, que escrever não é apenas um lápis tocando um papel ou um dedo pressionando o teclado nós já sabemos, mas qual seria então o potencial transformador da escrita? Separei aqui alguns achados para fazer você se jogar no papel (ou no teclado) por inteiro ou não largar de vez esse hábito tão aconchegante.

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Escrever sobre como você se sente pode:

1) Melhorar seu bem-estar físico

Sabemos que o nosso sistema imunológico pode ser afetado negativamente pelo nível de estresse do nosso corpo. Basicamente, estar intensamente estressado por um longo período não é interessante para sua saúde física. Inclusive, a dificuldade em regular emoções pode desencadear ou agravar algumas doenças crônicas, como asma e pressão alta².

E o que a escrita tem a ver com isso? Já existem evidências que relacionam escrever sobre as próprias emoções com a melhoria da imunidade do corpo e qualidade do sono. Entre as hipóteses, considera-se que a escrita pode ser nossa grande aliada na regulação emocional, diminuindo nosso nível de estresse e, consequentemente, afetando outras áreas do nosso corpo.

Foto: Pexels

2) Melhorar a maneira como você lida com suas emoções

Escrever sobre como nos sentimos pode afetar instantaneamente o nosso humor, muitas vezes de forma desagradável. Quem nunca escreveu aquele desabafo e ficou naquela “bad” refletindo sobre o que tinha acontecido?

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Ao escrever sobre uma situação incômoda, geralmente durante uma ou duas horas depois, tendemos a ficar meio pra baixo. Isso é natural, pois traz à tona a maneira como nos sentimos e precisamos nos dar um tempo para refletir (ou digerir, se preferir) sobre o que foi colocado. Isso a curtíssimo prazo.

No entanto, a longo prazo, escrever pode fazer com que você sinta mais bem-estar. Nas pesquisas apresentadas por Pennebaker, as pessoas que cultivaram o hábito de escrever sobre suas emoções relataram se sentir menos deprimidas e ansiosas, além de ruminar menos os acontecimentos passados.

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3) Impactar seu comportamento em diferentes contextos

Escrever sobre nossas emoções influencia não apenas a forma como vemos a nós mesmos, mas também pode refletir na maneira como nos relacionamos com diferentes áreas e pessoas em nossa vida.

No contexto dos estudos, por exemplo, escrever sobre como nos sentimos pode ajudar na melhor adaptação a diferentes situações, além de poder melhorar suas notas.

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Para esta última parte (polêmica rs), Pennebaker justifica que escrever pode melhorar a nossa memória de trabalho, isto porque quando estamos muito preocupados com questões emocionais, mantemos nossa memória ocupada por mais tempo e fora do foco, nesse caso, dos estudos.  

Nesse sentido, escrever pode manter nossa cabeça livre para direcionar nossa atenção aos nossos objetivos. Já tinha parado para pensar nisso?

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Já no trabalho, escrever sobre nossas emoções pode melhorar o relacionamento com as outras pessoas. A medida em que nos sentimos mais confortáveis internamente, tendemos a falar mais com os outros, colocando em prática o famoso “socializar”.

Além disso, neste ambiente acabamos nos tornamos melhores ouvintes, ficamos mais à vontade para rir e nos expressar, por exemplo, e tendemos a ter mais facilidade em reconhecer também emoções agradáveis em nosso cotidiano.

Foto: Pexels

Por fim, mas não menos importante, em nossos relacionamentos pessoais, escrever pode ser um exímio regulador emocional, ajudando na diminuição da raiva (sejamos realistas) e melhorando nossa satisfação com os relacionamentos.

Em todos esses benefícios, o principal aprendizado é que escrever cria um espaço entre nós e aquilo que pensamos ou sentimos em determinado momento da nossa vida.

Isso faz com que a gente tenha a possibilidade de criar uma nova perspectiva sobre o acontecido, de enxergar em nós coisas que muitas vezes não conseguimos identificar, talvez de transformar uma dificuldade em possibilidade, de sintonizar o nosso eu com quem gostaríamos de nos tornar ou simplesmente de afastar-nos da nossa experiência para compreendê-la melhor.

Experimente escrever sobre como se sentiu durante a semana, sobre a última vez que uma situação te deixou afetade, sobre como está sendo para você esse ano, que foi atípico em vários sentidos!

Escreva para você, não se prenda a erros gramaticais ou coerência, deixe sua mente viajar sem julgamentos e as palavras brotarem espontaneamente.

Faça isso durante alguns dias. Jogue fora ou não salve o arquivo, se achar que não deve ser guardado, publique se achar que ficou interessante, o mais importante é colocar para fora e se permitir expressar e ressignificar, se reconhecer em outro formato.

Escrever sobre suas emoções pode contribuir para transformação da maneira como você enxerga e se relaciona com o mundo a sua volta, e isso é absolutamente fantástico! Mas, é sempre bom deixar claro, como as águas do litoral alagoano, que escrever não substitui psicoterapia, tudo bem? Não vamos misturar os fatos.

Maragogi
Foto: transportal.com.br

Agora, recomendo que pegue o papel ou seu bloco de notas e só vá. Mas, antes de ir, me responde aqui: o quanto escrever mexe com você?

Referências

²MIKOLAJCZAK, M.; DESSEILLES, M. Tratado de Regulação das EmoçõesLisboa: Edições Piaget, 2012.

¹PENNEBAKER, J. W.; EVANS, J. F. Expressive Writing: Words that Heal: Using Expressive Writing to Overcome Traumas and Emotional Upheavals, Resolve Issues, Improve Health, and Buid Resilience. Idyll Arbor, Incorporated, 2014.

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