Permissão para sentir: 6 aprendizados para refletir sobre nossas emoções

Assisti recentemente a um webinar com o professor Marc Brackett, pesquisador de psicologia da Universidade de Yale e fundador do Yale Center for Emotional Intelligence (Centro de Inteligência Emocional).

O título do evento era Permission to Feel for Adults: Healthy Emotion Regulation During Uncertain & Stressful Times, em uma tradução livre, “Permissão para sentir: regulação saudável das emoções em tempos de incerteza e estresse”.

Sua fala inicial foi marcada pela influência e importância das nossas emoções em diferentes aspectos da vida, como memória, atenção, aprendizado, decisões, qualidade dos relacionamentos, saúde física e mental, atuação profissional e até mesmo em nossa criatividade.

No entanto, ele destacou que o ponto de partida para que possamos aprender e exercitar habilidades socioemocionais é justamente reconhecermos que precisamos nos permitir sentir antes de qualquer outra coisa.

Contextualizando o início do webinar

Ao apresentar uma pesquisa com 6.000 educadores para saber como eles estavam se sentindo durante a pandemia, foram recebidas respostas como: estresse, ansiedade, preocupação, medo, incerteza, gratidão, tristeza, esperança, sobrecarga e frustração.

Nessa mesma pesquisa, quando perguntados sobre como desejavam se sentir, as respostas foram palavras como: confiante, animado, feliz, seguro, esperançoso, otimista.

Ao mostrar esses resultados, ele seguiu com a pergunta que motivou o título do evento: você está se permitindo sentir essas emoções?

A partir desse questionamento, considerado o primeiro passo e também decisivo, o professor Marc Brackett dialogou sobre alguns aprendizados valiosos que dividi em 6 pontos e gostaria de compartilhar hoje nesse artigo com você.

Vamos ao primeiro ponto?

1) Nós podemos sentir várias emoções ao mesmo tempo: permita-se sentir e expressar cada uma delas

Estamos acostumados a pensar que quando estamos ansiosos, por exemplo, não temos o direito ou não podemos sentir nada agradável. Isso não é verdade, precisamos nos permitir estar de diferentes formas, sem culpa ou julgamento.

Podemos estar ansiosos com a pandemia que ainda persiste, por exemplo, mas nos permitir ficar animados com o sucesso de uma aula com os alunos durante a semana.

Na verdade, em boa parte do tempo, para que possamos continuar vivendo e funcionando bem, precisamos de ânimo e algum entusiasmo.

Não precisamos permitir que a ansiedade tome conta de todo o nosso dia e semana por completo achando que não estamos “autorizados” a nos sentir de outras formas.

Permita-se transitar pelos seus estados emocionais sem criticar a si mesmo por isso.

2) Experimente e crie receitas próprias para regular suas emoções

Já vimos em outro momento que regular emoções não é sobre controle, e sim sobre estratégias para mudar a intensidade daquilo que sentimos de maneira a dar aquela ajudinha para nossas escolhas.

Ou seja, regulação emocional são basicamente pensamentos e ações que usamos para reduzir, manter ou aumentar a intensidade das nossas emoções a fim de melhorar nosso bem-estar, construir boas relações e atingir nossas metas.

Nesse sentido, é importante termos em mente que não existe uma receita de como fazer isso, precisamos experimentar e construir as formas, isto é, combinar os ingredientes que funcionam para nós.

Dito isto, ao invés de perguntar se sua estratégia é certa ou errada, experimente o questionamento: essa estratégia está me ajudando a tomar boas decisões?

Saiba que, muitas vezes, o que funcionou para mim pode não funcionar para você, e tudo bem. Como disse Marc em sua fala: mindfulness (um dos principais recursos de regulação disseminados hoje) é muito importante, mas não é a resposta para tudo, é apenas uma estratégia.

3) Nosso emocional está conectado a outros aspectos da nossa vida e isso não pode ser ignorado

Você sabia que o sono, alimentação e atividade física influenciam no sucesso de conseguirmos ou não usar estratégias de regulação emocional?

É difícil conseguirmos dar o melhor de nós para lidar com diferentes situações quando estamos cansados, com fome ou sem produzir endorfinas para o nosso corpo.

Sabe quando você está irritado porque pulou o almoço? Desanimado depois de uma noite mal dormida? Sem energia mantendo a vida 100% sedentária que insistimos em dizer que “faz parte”?

Em muitas ocasiões, nossas estratégias de regulação emocional não funcionam por obstáculos presentes em nossa própria rotina que influenciam o emocional.

Eu, por exemplo, fico extremamente irritada quando não durmo bem por vários dias seguidos. É muito difícil conseguir não descontar em pessoas próximas, sendo grosseira, antes de dormir as horas de sono que meu corpo necessita.

Nosso cérebro não é formado por caixinhas separadas e independentes, é importante exercitarmos olhar de forma sistêmica para o nosso próprio corpo, criando consciência dessas relações.

4) Sua maneira de enxergar a vida importa

Cerca de 40% do nosso bem-estar está relacionado com a perspectiva que nós temos da vida.

Sim, é aquela velha história de enxergar o copo meio cheio ou meio vazio.

Foto: Pexels

O problema é que boa parte dessa maneira de enxergar o mundo nós criamos baseados nas opiniões dos outros sobre nós, e isso pode ser bem prejudicial. Nesse sentido, Marc Brackett convida a pensarmos criticamente sobre os acontecimentos do nosso cotidiano.

Que tal dizer palavras mais encorajadoras a si mesmo, por exemplo?

Não é pensar positivo por pensar positivo, é lembrar que as situações são passageiras e não precisamos ser tão duros conosco. Uma pessoa muito ansiosa pode lembrar que já se sentiu assim em muitas ocasiões, geralmente esse sentimento vem e vai, e tá tudo bem, dá pra seguir em frente.

Ou, você pode experimentar se dar os mesmos conselhos que daria àquele amigo próximo que você deseja tanto bem.

Ou ainda, dizer o seu próprio nome e cargo para adotar uma perspectiva externa que te ajude a olhar com mais cuidado para você mesmo. No meu caso, por exemplo, eu poderia perguntar: o que a Thayanne psicóloga diria nesse momento difícil?

Essas estratégias podem ajudar na mudança de perspectiva sobre os fatos e consequentemente na escolha de como regular suas emoções em diferentes situações.

5) Crie uma rotina preventiva

Isso significa cuidar da saúde mental como parte do nosso dia a dia, não apenas quando e se algo acontece. Como funciona sua rotina hoje? Como você gostaria que ela fosse? Sua rotina de trabalho está como deseja?

Pensar sobre essas questões e investir em fatores de proteção com pequenas mudanças no cotidiano pode promover melhoria da saúde mental e reduzir o estresse.

Intervenções pontuais após situações emergenciais acabam sendo menos efetivas a médio e longo prazo, lembre-se disso.

6) Vá além da meta “ser feliz é a resposta”

Focar muito na felicidade pode fazer você se sentir pior ao longo do tempo. Aprender habilidades socioemocionais não é necessariamente sobre ser feliz, é sobre aceitar todas as emoções e encontrar o equilíbrio para nossas vidas.

E, para finalizar, é importante compreendermos que o aprendizado sobre nossas emoções não é simples e fácil como pode ser interpretado ao ouvirmos o termo “soft skills”.

Na verdade, esse é um aprendizado bem “hard”, porque nós precisamos avaliar, reavaliar e mudar constantemente nossa maneira de pensar e se comportar para melhorar nossa qualidade de vida e relações com o mundo.

Espero que tenha gostado dos aprendizados desse webinar! Antes de considerar qualquer um desses pontos a partir de hoje, é importante olharmos para nós mesmos e primeiramente nos permitir sentir todas as nossas emoções.

Sim, sem julgamentos.

Me conta, já parou pra pensar no quanto você se permite sentir suas próprias emoções?

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