O que você precisa saber sobre consciência emocional e como desenvolvê-la?

Reconheçamos que estamos ouvindo bastante sobre emoções ultimamente, né? Particularmente, isso é maravilhoso, dada a importância que elas têm na nossa qualidade (ou não) de vida! No entanto, por vezes os conceitos se misturam um pouco ou nos deixam meio confuses sobre o que significam exatamente: este é o caso da consciência emocional.

Pensando nisto, sintetizei algumas informações que podem te ajudar bastante se você estiver pensando em melhorar a consciência sobre suas emoções. Prepare-se para encontrar respostas às perguntas mais comuns sobre o tema e algumas sugestões sobre como ele pode ser aplicado ao seu cotidiano. Prontes?

Vamos começar do início: o que é consciência emocional? Onde vive, o que ela come?

Brincadeiras à parte, consciência emocional é, basicamente, a capacidade de reconhecermos e nomearmos nossas emoções e das outras pessoas¹. Ela é considerada um pilar da inteligência emocional porque é a base que nos possibilita refletir e planejar ações baseadas em informações sobre a maneira como nos sentimos.

É aquela velha história: se não sabemos que algo existe e que estamos sendo influenciados por ele, por que faríamos alguma coisa com isso?

Existe um consenso entre alguns estudiosos de que emoções funcionam como uma fonte de informações, nos sinalizando sobre o que está acontecendo dentro ou fora de nós para que possamos pensar melhor nas nossas decisões (sejam pequenas ou grandes).

O que muitas vezes acontece é que no piloto automático, levados pela correria e pressão das diversas áreas da nossa vida, nós deixamos essas informações passarem por nós despercebidas, mas ainda assim elas continuam influenciando o nosso comportamento, sabia?

E por que a consciência emocional é importante?

O desenvolvimento da consciência emocional pode nos ajudar em vários aspectos, vamos pensar aqui sobre alguns deles:

1) Sem consciência sobre nossas emoções fica difícil refletir e planejar sobre nossas escolhas cientes de que as emoções estão participando delas (tanto a nível de pensamento como de comportamento), o que muitas vezes nos “obriga” a agir no piloto automático, que nem sempre tem engatilhado um comportamento tão interessante assim.

Sabe a relação “tristeza-comida”, “raiva-grito”, “frustração-desistência” ou “entusiasmo-compra”? Então, não precisa ser assim… uma relação de causa-efeito.

Mas como ser diferente se você não consegue perceber a relação entre eles, identificando como você está se sentindo antes de comer, gritar, desistir ou comprar, por exemplo?

Já existem pesquisas mostrando que quanto mais conseguimos nomear precisamente nossas emoções em diferentes momentos, melhor podemos compreender o que acontece conosco e a nossa volta, facilitando a regulação emocional e ações mais apropriadas a diferentes contextos²³⁴.

2) Hoje, já sabemos que aprender palavras para nomear nossos estados emocionais, ou seja, aumentar o vocabulário emocional, pode melhorar o autoconhecimento, aprimorar nossa percepção sobre nós mesmos e sobre o meio em que vivemos, além de favorecer uma vida emocional e social mais saudável e construtiva. Legal, né? E tem mais!

3) Já existem várias pesquisas também sobre a importância da granularidade emocional² para uma vida emocional mais saudável. E o que seria isso?

Foto: Anni Roenkae – Pexels

A granularidade emocional é a habilidade de transformar em palavras aquilo que sentimos de forma específica e precisa. Para psicóloga e pesquisadora Lisa Feldman Barret, essa é a forma mais precisa da gente fornecer recursos ao nosso cérebro pra lidar com os desafios da vida (Achei um artigo em um blog [inglês] bem legal sobre isso, ele tá repleto de referências interessantes sobre a temática, confere aqui).

O conceito não diz respeito a apenas diferenciar emoções opostas e que não tem nada a ver uma com a outra, como alegria e tristeza, mas também emoções semelhantes que exigem da nossa parte um processo de reflexão e autoconhecimento um pouco mais elaborado².

Vamos pensar em um exemplo:

Imagina aquela pessoa que toda vez que você pergunta como ela tá, ela diz que tá estressada. Estresse é muito genérico, que tipo de coisa se pode fazer com o estresse de forma geral? Não sei, depende! Esse estresse pode representar frustração com o atual emprego, chateação em um relacionamento, irritação por péssimas avaliações no trabalho/universidade.

Naturalmente, para cada situação dessa o nosso repertório de ações precisa ser diferente, porque são situações diferentes. Se colocamos tudo “no bolo” do estresse, perceba o quanto perdemos informações para planejar mais assertivamente o que fazer a partir da maneira como nos sentimos.

Nomear mais precisamente nossas emoções nos permite investigar as possíveis causas delas, identificar gatilhos para a maneira como nos sentimos, e aumenta nosso potencial para pensar o que fazer em relação a situação.

Se eu tô frustrada com meu trabalho, posso conversar com meu superior ou me reorganizar para mudar de área/ empresa. Se estou chateada com meu relacionamento, posso abrir um espaço de diálogo com meu parceire ou conversar com alguém de confiança sobre a situação. Se tô estressada, posso simplesmente não pensar muito sobre nada disso e continuar vivendo no piloto automático, percebe?

Isso também acontece em relação a outras pessoas. Quantas vezes não ficamos irritades achando que o outro tá estressade com a gente, quando na verdade ele só tá cansade depois de um dia intenso de trabalho? Tentar se aproximar de uma percepção mais precisa pode, inclusive, nos fazer iniciar esse diálogo:

– Você tá estressade comigo, tô notando você meio diferente.

– Na verdade não, só tô bem cansade, o dia foi pesado hoje.

(imagine o novo rumo dessa conversa…)

Tá bom, mas como faz pra desenvolver essa tal de consciência emocional?

Existem vários caminhos para se fazer isso, não daria pra explorarmos todos por aqui (até porque este artigo já está ficando longo, não é verdade?).

Deixo abaixo 4 sugestões e espero de coração que você consiga colocar uma delas (ou mais) em prática a partir de hoje!

1) Acabe com essa história de “Não posso me sentir assim ou assado”

Eu sei que eu repito isso muitas vezes nos meus textos, mas é necessário, acredite.

Ao invés de dizer isso pra si mesme, procure ter uma postura curiosa e acolhedora em relação a suas emoções, perguntando: “Estou em sentindo ‘assim’ como? Eu conseguiria dar um nome pra isso? Por que será que tô me sentindo dessa forma?”

De preferência, anote as primeiras vezes que fizer isso, para internalizar a prática e registrar possíveis reflexões.

Permita-se sentir suas emoções sem julgá-las. Quando negamos a nós mesmes o direito de sentir, acabamos perdendo a habilidade de identificar como nós estamos e tendo muita dificuldade de compreender o porquê estamos nos comportando de uma determinada forma ou o que tá acontecendo nas nossas vidas que tá causando essa emoção.

2) Compartilhe com as pessoas próximas como você tá se sentindo e estimule-as a fazer o mesmo

Eu sei que é meio estranho perguntar para alguém “Como você tá?” e ouvir mais do que “Tudo bem, e você?”. Mas, tente ir além dessa resposta com pessoas da sua convivência, aquelas em que confia. Explore como você está se sentindo, por que está se sentindo dessa forma e demonstre interesse para saber dela também.

Dependendo da situação, vocês podem até brincar de adivinhar como o outro está só pela maneira como falou e se comportou desde que chegou do trabalho, por exemplo. Vocês podem checar a veracidade das informações e começar um diálogo lindo a partir disso. Já pensou? De quebra ainda vai te ajudar a se ligar mais nas suas próprias emoções e nas do outro também. (Essa sugestão já valeu o artigo inteiro, eu sei, obrigada hahaha)

3) Pergunte-se o que seu estado emocional está dizendo sobre quem você é e o que importa para você

Essa dica eu ouvi em um podcast da psicóloga Susan David e achei muito legal! Já sabemos que emoções são informações sobre o que tá acontecendo fora e dentro da gente. Essas informações podem também nos comunicar sobre quem somos e com o que nos importamos.

Sabe aquela tristeza porque alguém não retornou sua ligação ou não falou direito com você naquele dia, por exemplo? O que ela pode dizer sobre o quanto essa pessoa é importante na sua vida? Ou sobre a maneira como você é tratado ser importante pra você? Isso serve pra várias situações e contextos.

Experimente se fazer perguntas dessa natureza e descubra um mundo interior desconhecido e muito útil!

Foto: Rakicevic Nenad – Pexels

4) Confira as postagens semanais do Emociona-te sobre diferentes emoções

Lá na página do Instagram, toda sexta-feira posto uma foto com o conceito de uma emoção diferente para estimular a reflexão sobre diferentes estados emocionais, essa sementinha começou a ser plantada aqui.

A ideia não é fazer as pessoas decorarem o que significa cada uma delas, mas serem convidadas a pensar se já se sentiram assim em algum momento ou no quanto se identificam com o que está descrito lá, estimulando a ampliação da consciência emocional.

Se você não conhece o projeto, dá uma passadinha por lá. Espero que gostes!

Ah, e em breve farei uma Live para tirar dúvidas e conversarmos melhor a respeito de consciência emocional, fica de olho e já anota aí na sua agenda!

Se você chegou até aqui, me conta, você já faz algo pra desenvolver sua consciência emocional? Se sim, tem alguma dica pra ajudar aquela pessoa que tá com dificuldade?

Referências

¹ ALZINA, R. B.; GONZÁLEZ, J. C. P.; NAVARRO, E. G. Inteligencia emocional en educación. Madrid: Sintesis, 2015. 340 p.

⁴ JY, L; KA, K; CS, N. Emotional Granularity Effects on Event-Related Brain Potentials during Affective Picture Processing. Frontiers in human neuroscience. V. 11, p. 133, 2017. https://doi.org/10.3389/fnhum.2017.00133

³ LINDQUIST, K. A; GENDRON, M.; SATPUT, A. B. Language and emotion: putting words into feelings and feelings into words. In Barrett, L. F.; Lewis, M.; Haviland-Jones, Jeannette M. (Ed.). Handbook of emotions. Guilford Publications, 579-594, 2016.

² SOUZA, M. T. F. Mudanças no comportamento e na granularidade emocional após educação emocional e social com crianças. Trabalho de conclusão de curso de pós-graduação em Neuropsicologia, UNICAMP. Campinas, 2018.

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