Três maneiras de cultivar autonomia emocional a partir do pensamento crítico

Já passou pela situação de entrar em uma sala (física ou virtual) cheia de gente e sentir um clima meio pesado? Alguns estão irritados, outros estão ariscos. Olhares e gestos deixam o ambiente imerso em um “climão” e de repente você se vê também como parte dele. Após a reunião, percebe que o restante do seu dia continuou meio pesado, embora não saiba exatamente por quê. Afinal de contas, quando você acordou estava decidide a fazer tudo dar certo.

Quem nunca?

Autonomia emocional é a capacidade de não afetarmos fortemente o nosso estado emocional por estímulos externos¹, em outras palavras, significa conseguirmos ser autônomos para escolher minimamente a maneira como gostaríamos de nos sentir diante das situações que acontecem a nossa volta.

No exemplo acima, seria participar desta reunião, perceber o clima, talvez até se afetar inicialmente por ele, e intencionalmente decidir não perder o seu dia inteiro por conta daquilo (consciência emocional aqui é fundamental!).

Se em algum momento isso pareceu fácil, esse é o momento que eu preciso ressaltar: não é não, tá?

Além de sermos seres sociais, naturalmente influenciados pelas pessoas que estão ao nosso redor e culturalmente reforçados demasiadamente por isso, desenvolver esta capacidade envolve a prática contínua de uma série de habilidades, como manter uma autoestima saudável, cultivar responsabilidade por nossas escolhas, autoconfiança, pensamento crítico, entre muitas outras.

Como seria impossível focarmos em todas estas habilidades ao mesmo tempo, destaco a importância do pensamento crítico para que possamos alimentar nossa autonomia emocional cotidianamente.

Por pensamento crítico² me refiro a compreensão das nossas necessidades individuais, desejos e valores diante de tudo que aprendemos e absorvemos neste nosso mundão. Ele pode nos ajudar a optar intencionalmente por escolhas pensando no nosso bem-estar, especialmente a longo prazo, e pode também fortalecer o nosso emocional diante de tantos estímulos externos.

Photo by Ann H from Pexels

Vamos conhecer três maneiras de cultivá-lo de forma mais consciente?

1) Invista tempo e energia no seu autoconhecimento

Não dá pra pensar criticamente sobre nossas escolhas se não tivermos uma visão nítida de quem somos, do que gostamos e precisamos em nossa vida. Necessidades, desejos e valores são individuais, apenas quando descobrimos por nós mesmes o que faz sentido ou não, o que combina ou não com a gente, é que podemos caminhar em direção ao pensamento crítico.

O que exatamente poderíamos criticar se nem nós mesmes sabemos o que precisamos ou gostamos de verdade?

Autoconhecimento não é um processo fácil, existem várias maneiras de se fazer isso, inclusive por meio de psicoterapia. Mas, para darmos um primeiro passo nessa empreitada, deixo uma dinâmica que amo (quem já participou de formação comigo certamente já fez) e poderá te ajudar a iniciar esse processo:

Observação: essa dinâmica existe em uma infinidade de lugares e para vários objetivos diferentes, nunca encontrei a “primeira referência”, acho que acabou virando domínio público (rs). Mas, se você ficou curiose pra conhecer em outras aplicações ou uma referência, confere nessa tese aqui.

Preencha cada quadrante com o que é solicitado, lembre-se de abusar da sinceridade e colocar tudo que vier em sua mente. Não preenchi de exemplo para não enviesar suas respostas, mas vou deixar aqui embaixo pontos que podem ser considerados:

Assistir filmes e séries em meu tempo livre; me maquiar; comprar materiais de papelaria; esportes em geral; exercício físico; ouvir música; comer o que quiser; dieta restritiva; estudar tal tema; tocar um instrumento; fazer as unhas; conversar com amigos; beber algo; frequentar bares/shows; ir ao teatro; estar rodeado de pessoas; ter meu tempo sozinhe; não expressar/expressar minha opinião no trabalho; me entregar completamente ao trabalho; ter tempo livre; namorar; ficar sozinhe etc.

A ideia é que você coloque o máximo de comportamentos que atualmente representam quem realmente é e o que gosta ou não. Após preencher, analise como se sente ao olhar para cada quadrante e procure pensar sobre a importância de fazer coisas que você não gosta, por exemplo.

Pergunte-se por que você faz o que não gosta. É porque realmente precisa ou não consegue encontrar um motivo que faça sentido dentro da sua realidade? Pra ficar mais fácil, vamos pensar juntes:

eu não gosto de limpar a casa, mas preciso fazer isso porque não existe a possibilidade de viver em um ambiente sujo e desorganizado em que eu seja produtiva; ou porque odeio bichos e é isso que vai acontecer se eu não limpá-la nunca. Esse parece um motivo coerente com o meu contexto. Agora imagine a seguinte situação: eu não gosto de me maquiar, mas me maquio sempre pra não falarem que eu sou uma mulher que não se cuida.

Na última situação já temos um ponto de atenção, pra pensar melhor sobre ele vamos ao próximo ponto! (Mas antes, faça essa lista, destaque o que não faz e gostaria de fazer, e o que não gosta mas faz, categorizando se é porque de fato faz sentido no seu contexto, isto é, está de acordo com suas necessidades, desejos e valores, ou se poderia ser diferente.

Se preferir, separe em duas colunas:

2) Questione diferentes padrões (aqueles que te incomodam ou não)

Toda cultura tem seus próprios padrões, seja de beleza, corpos, hábitos, esportes, profissões, carreiras, relacionamentos etc. Isso não significa que é tudo ruim, mas também não quer dizer que tudo é bom pro nosso bem-estar.

Crie o hábito de questionar o motivo pelo qual você faz o que faz. E não vale responder que nem Chicó, hein…

Na listinha anterior, pegue todos os pontos da coluna com comportamentos que podem ser repensados e reflita:

Por que exatamente faço isso? Está de acordo com minhas necessidades, desejos e valores? Mesmo que não te incomode fazer determinadas coisas, reflita sobre.

Se tudo bem, está de acordo, massa!

Se não, já já a gente fala sobre isso, no próximo tópico.

Antes de avançarmos, gostaria de frisar que absolutamente tudo que fazemos na vida possui em algum grau influência da nossa cultura macro ou micro, desde as comidas que comemos aos pequenos hábitos que criamos (não é todo país que escova os dentes depois do almoço não, sabia disso? Só pra ajudar aí na sua reflexão).

Colocar em evidência coisas que sempre pareceram normais é fundamental pra que possamos ter uma visão crítica sobre nossas próprias vidas. Nessa propaganda da Always, por exemplo, foi questionado o que significa fazer as coisas “Tipo Menina”. O resultado? Emocionante:

3) Procure cultivar uma perspectiva realista sobre seus comportamentos e o das pessoas ao seu redor e mudar conforme veja sentido

Como dito no filme Enola Holmes:

“Você pode seguir dois caminhos: o seu ou o que os outros escolhem para você.”

Se agora já tá percebendo que faz um monte de coisas que não necessariamente precisaria ou que te deixam desconfortáveis por qualquer que seja o motivo, relaxa que nada está perdido.

O importante é que você tenha consciência do motivo pelo qual está fazendo ou não determinadas coisas e, a partir disso, aos poucos, poderá ir mudando aquilo que não está tão alinhado com seus desejos, valores e necessidades, isto é, ir escolhendo seu próprio caminho.

Sim, aos poucos. Não dá pra mudar hábitos e costumes do dia pra noite, tem que ter motivação, planejamento, paciência e consistência. Para além disso, procure refletir sobre suas próprias limitações, isso é fundamental para não entrar em um ciclo destrutivo e para fortalecer uma autoestima que independe, ou pelo menos depende menos, de padrões arbitrários externos.

Alguns pontos que podem ser considerados nesta reflexão:

  • Às vezes, vamos optar por manter alguns comportamentos, mesmo sabendo que fazemos isso por influências culturais. E se isso não te causa mal-estar, tá tudo bem, tá? Fique tranquile!
  • Não é possível mudar tudo de uma vez; mudança é processo, busque encontrar o ritmo do seu, respeitando seus limites físicos e psicológicos. Dependendo de qual mudança deseja fazer, lembre-se que buscar ajuda profissional especializada é sempre uma opção válida e, dependendo da área, fundamental.
  • Ninguém é bom em tudo ou sabe tudo sobre um assunto, absolutamente ninguém.
  • Não dá pra ganhar todas, às vezes precisamos lidar com batalhas perdidas.
  • Não existe a possibilidade de nunca cometer erros. Descarte essa hipótese o quanto antes, se permita falhar no processo e encontrar motivação para recomeçar!
  • A maioria dos resultados da nossa vida dependem de uma ampla variedade de causas e condições, muitas estão fora do nosso controle. Ter uma perspectiva mais realista sobre esse ponto pode ajudar no enfrentamento de desafios com maior confiança, pois podemos focar em situações que dependem da nossa capacidade de resolução e dar o nosso melhor para que isso aconteça.
  • Decepções, desafios e erros são experiências inevitáveis e universais que podem contribuir com nosso amadurecimento. Ter consciência disso não compromete nossa motivação, pelo contrário, pode nos ajudar no desenvolvimento de mais resiliência.

Ufa, quanta coisa, né? Mas, espero que tenha te ajudado a refletir sobre a importância do pensamento crítico para nossa saúde emocional.

Me despeço com um trecho que me toca bastante sobre esta temática:

“Perdas, vulnerabilidades, limitações, imperfeições, a velhice, a doença e a morte, são aspectos inescapáveis a condição humana, e refletir sobre essa realidade de tal forma que ela se torne um conhecimento internalizado pode preparar uma pessoa para enfrentar melhor essas dificuldades quando elas inevitavelmente surgirem”. (Center for Contemplative Science and Compassion-Based Ethics, 2019, p. 39)

Compartilha por aqui se você já refletiu sobre esses pontos em algum momento, vou adorar conhecer a sua experiência!

Referências:

¹ ALZINA, R. B.; GONZÁLEZ, J. C. P.; NAVARRO, E. G. Inteligencia emocional en educación. Madrid: Sintesis, 2015. 340 p.

² Center for Contemplative Science and Compassion-Based Ethics. Aprendizagem social, emocional & ética: Educando o Coração e a Mente. Emory University, 2019.

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