O que o erro de Otelo pode ensinar sobre nossas emoções?

Embora a obra Otelo, de William Shakespeare, seja aparentemente bem famosa, confesso que só conheci quando estava lendo um dos livros do psicólogo e pesquisador Paul Ekman: A linguagem das emoções. Achei bem interessante a correlação feita com aspectos da nossa vida emocional, guardei a ideia e hoje venho compartilhar por aqui.

De forma bem sintética, a peça conta uma história trágica e amarga, infelizmente não muito diferente das que vemos hoje em muitas manchetes. Otelo acusa sua esposa, Desdêmona, de estar apaixonada por Cássio e de traí-lo. Ao exigir que ela confesse, pois irá matá-la por sua traição, Desdêmona pede que Cássio seja chamado ao diálogo para que ela possa provar sua inocência.

Neste momento, Otelo confessa que matou Cássio. Desdêmona percebe, então, que não será capaz de provar sua inocência, e que morrerá injustamente. Angustiada, diz que está perdida! Otelo entende que ela está desesperada pela morte de Cássio e ainda pergunta como ela ousa chorar por ele em sua frente.

A história termina tragicamente, com o assassinato de Desdêmona. E o mais interessante é que o erro de Otelo não foi a incapacidade de reconhecer os sentimentos de Desdêmona.

Ele notou sua angústia e medo, possivelmente seu rosto e postura evidenciavam suas emoções. Seu erro foi acreditar que Desdêmona se sentia assim por um único motivo: a morte de seu suposto amante.

(Na verdade, um de seus erros, porque matar uma pessoa por acreditar que ela te pertence ou te traiu é um erro central na história e injustificável, mas esse pode ser assunto para um outro artigo).

Normalmente, nossas emoções não costumam ser invisíveis ou silenciosas. As pessoas ao nosso redor, quando atentas, podem identificar como estamos nos sentindo ou aparentando sentir.

Podemos minimizar ou disfarçar nossas expressões e posturas? Sim, é possível. Mas, de acordo com o próprio Ekman, parece ter sido útil na história da nossa espécie informar a emoção que estamos experimentando sem deixar isso explícito em um diálogo, por isso, esse disfarce exigirá de nós um grande esforço consciente.

Se por um lado, expressões faciais e corporais das nossas emoções transparecem por todo o nosso corpo, por outro, eles não revelam sua fonte, isto é, sua razão. Isso significa que podemos identificar as emoções do outro, mas não temos como saber o porquê dela, por isso tendemos a inferir a partir do contexto.

Essa inferência pode nos ajudar bastante em algumas situações, mas em muitas outras pode ser um grande problema, como na história de Otelo.

Ao interpretar a angústia e desespero de Desdêmona como resultado da notícia da morte do seu suposto amante, e seu medo decorrente de ter sido pega em traição, Otelo assassina Desdêmona sem considerar que suas emoções poderiam ter razões diferentes.

No fim, essas eram reações de uma mulher inocente, convencida de que seu marido extremamente ciumento estava prestes a matá-la, não havendo maneira de provar a verdade e poupar sua vida.

Guardadas as devidas proporções do peso que carrega esta triste história, fica a reflexão:

Com que frequência acusamos ou nos chateamos com outras pessoas por achar que a nossa interpretação sobre as emoções delas é mais correta do que a dela própria? Quantas vezes procuramos saber os motivos e razões reais que deixaram o outro se sentindo de determinada forma?

Magoamos pessoas queridas, brigamos com colegas de trabalho, desgastamos relações valiosas que poderiam ser bem mais prazerosas.

Em diferentes graus, cometemos (sim, eu também) o mesmo erro de Otelo em nosso cotidiano

Extrair e integrar informações sobre o nosso ambiente parece, de forma geral, ser natural e útil para o nosso bom funcionamento. No entanto, precisamos questionar por que ainda hoje, com tudo que sabemos sobre complexidade e relações, e tendo a possibilidade de diálogo com o outro, temos o impulso de tirar conclusões sobre o que se passa dentro de outra pessoa, sem lhe dar a mínima participação nesta troca.

Em um de seus livros, a Dra. Ana Cláudia Quintana Arantes nos ajuda nesta reflexão:

“No exame físico, consigo avaliar quase todos os órgãos internos de um paciente. Com alguns exames laboratoriais e de imagem, posso deduzir com muita precisão o funcionamento dos sistemas vitais. Mas, observando um ser humano, seja ele quem for, não consigo saber onde fica sua paz. Ou quanta culpa corre em suas veias (…), quanto medo há em seus pensamentos”. Indo além, na maioria das vezes não conseguimos saber a razão real dessa paz, culpa, medo, sem que esta pessoa se comunique conosco.

Você pode argumentar dizendo que a depender da situação fica subentendido. E eu te pergunto de volta: tão subentendido quanto estava para Otelo?

Subentender quase sempre está mais para confirmar aquilo que pensamos do que para compreender a real situação. E mais, gosto de brincar que “deixar subentendido” é para poesias e canções (é lindo, eu sei), para relações não costuma funcionar, precisamos dialogar.

Embora não seja fácil, existem alguns caminhos que nos permitem evitar o erro de Otelo, deixarei de forma breve 2 dicas:

1) Adie o diálogo enquanto estiver “à flor da pele”

Emoções são ótimas informantes, mas quando estão muito intensas não conseguimos entender muito bem o que elas estão dizendo. É como uma música tão alta que não prestamos atenção em absolutamente nada da letra porque o volume está roubando completamente a atenção.

Precisamos diminuir o volume para pensar melhor, entender a letra, compreender a mensagem… Imagine-se conversando com alguém enquanto uma música toca no máximo. Bem desagradável, né? Com nossas emoções é um pouco parecido, precisamos abaixar o som para ouvir a nossa voz e também a do outro.

Retire-se do ambiente, peça alguns minutos, lave o rosto, tome um banho, beba um copo de água, pratique respiração consciente, converse com alguém confiável, permita-se chorar se sentir necessidade. Encontre formas de abaixar o volume antes de continuar o diálogo, fará toda a diferença.

2) Compreenda que não existe UMA realidade, existem vidas se relacionando

Portanto, resista à tentação de concluir precipitadamente sem deixar que as outras pessoas envolvidas possam se colocar de forma honesta e segura na situação. É duro nos rendermos ao fato de que nem tudo que pensamos e sentimos é verdade, mas é necessário para que possamos não cometer o erro de Otelo.

Um caminho é, ao invés de acusar, checar se a sua interpretação tem algum fundo de realidade. Em vários momentos me vi nesta situação:

A: Você tá tão estranha, indiferente comigo hoje. O que foi que eu fiz?

B: Você não fez nada, hoje tá sendo um dia de muita cobrança no trabalho, estou cansada, estressada e precisando dormir.

Faça um breve flashback e se pergunte quantas conversas poderiam ter seguido esse rumo em sua vida.

Lembre-se que nem tudo é sobre nós. É saudável e desejável que tentemos considerar motivos alternativos para o que está acontecendo. Emoções possuem diversas e diferentes fontes. Por exemplo, o medo de sofrer agressão sendo culpado em uma situação é o mesmo medo de sofrer agressão sendo um inocente não ouvido.

Já vimos por aqui em várias ocasiões que emoções são fonte de informações importantes que podem ajudar demais a nossa qualidade de vida, mas suas razões não são estáticas, são muito mais complexas do que podemos imaginar.

Você já tinha feito essa reflexão? O que achou dela? Se tiver mais algum dica pra evitar o erro de Otelo, compartilha com a gente?

*Reflexão inspirada nas reflexões de Paul Ekman, na obra A Linguagem das Emoções (2011).

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