você que trabalha com habilidades socioemocionais, vem cá rapidinho?

Inteligência emocional, Aprendizado Socioemocional, Educação Socioemocional, competências para o século 21, soft-skills, habilidades do futuro… quais outros termos você já ouviu por aí para falar sobre habilidades socioemocionais?

A verdade é que desde a ascensão dos aspectos socioemocionais, lá na década de 1990, estamos todos perdidos no grande rolê das chamadas (de forma equivocada) habilidades “não-cognitivas”. Quando percebemos que o que constava no currículo escolar e no dia a dia das empresas não estava mais sendo suficiente, começamos a valorizar aspectos socioemocionais de um jeito muito interessante, mas ao mesmo tempo muito confuso.

Gostaria de compartilhar um trabalho bem legal que está sendo feito pela Universidade de Harvard a fim de ajudar quem trabalha na área ou tem curiosidade acerca dos diferentes termos adotados, bora?

A verdade é que esse tal de domínio “não-cognitivo” tá muito confuso mesmo, mas tem gente tentando organizar!

De acordo com este artigo aqui, escrito por um grupo de pesquisadores da Universidade já mencionada, os fatores “não-cognitivos” tem ganhado muita atenção e importância em contextos educacionais, mas a preocupação com a falta de precisão na definição e nas medidas tem sido grandes.

O campo é atingido constantemente por dilemas sobre o que deve ser incluído ou não neste domínio tão amplo, além de desacordos sobre como ele deve ser chamado.

O próprio nome “não-cognitivo” é um problema, pois sugere que essas habilidades são separadas da cognição, o que na prática não faz sentido o menor sentido, considerando que muitas tarefas relacionadas ao socioemocional envolvem habilidades cognitivas, como prestar atenção, refletir, adotar diferentes perspectivas, resolver problemas, etc.

No entanto, eles optaram por utilizar este termo entendendo que muitos educadores, políticos, pesquisadores e jornalistas se referem a ele para falar sobre habilidades que não são parte integrante do conteúdo acadêmico de áreas de conhecimento gerais, como é o caso de português e matemática, por exemplo.

Eles defendem que esforços devem ser feitos para traduzir pesquisas em práticas que sejam efetivas às escolas, pois sem clareza e mecanismos que permitam conexão entre diferentes perspectivas dentro do campo corremos o risco de criar e implementar padrões e estratégias ineficazes, além de conduzir pesquisas imprecisas e inconclusivas, custando tempo, dinheiro e esforços.

É utilizado no artigo o termo “uma cozinha, muitos cozinheiros” para descrever o campo atualmente.

Foto: RODNAE Productions – Pexels

Isto porque os estudos na área recebem os mais diferentes nomes, como “educação de caráter”, “Aprendizado Socioemocional”, “Educação Socioemocional”, “personalidade”, “habilidades do século 21”, “soft skills”, “habilidades do futuro”, “alfabetização emocional” etc.

Abrindo um pequeno parêntese, para exemplificar a diversidade de termos, recentemente estava lendo o Relatório “Strengthening Social and Emotional Education as a core curricular area across the EU: a review of the international evidence“, publicado em 2018 pela Comissão Europeia para pensar a área no contexto do continente, e ele registrou mais de 20 termos para descrever processos socioemocionais dentro da educação que poderiam ser “enquadrados” como educação socioemocional.

A verdade é que existem diferentes frameworks (sistemas organizadores ou estruturas/ modelos teóricos) para falar sobre habilidades socioemocionais, e cada um defende um ponto de vista e se refere a vários aspectos do chamado domínio “não-cognitivo”, usando estruturas, linguagem e terminologias específicas para sua própria tradição e objetivos, o que muitas vezes confunde tentativas de traduzir pesquisas em práticas.

Por exemplo, diferentes frameworks podem se referir à mesma habilidade ou competência com nomes diferentes, ou usar o mesmo termo para se referir a duas habilidades conceitualmente distintas. Isso torna difícil a comparação entre conceitos e até entre modelos.

Cada um desses modelos que estão sendo fortemente disseminados costumam funcionar em seu próprio contexto, mas existem semelhanças fundamentais entre o aprendizado socioemocional, as habilidades do século 21 e todos os outros. Por outro lado, não tínhamos nada que apontasse como eles estão relacionados entre si ou, ainda mais importante, onde especificamente eles se diferenciam.

Para imaginarmos implicações práticas…

Vamos pensar que, normalmente, existe uma ligação explícita entre o que as pesquisas sugerem de evidências sobre um conceito, a maneira como definimos esse conceito, as estratégias práticas que vamos utilizar para promovê-lo na vida real das pessoas e a maneira como vamos avaliá-lo.

Considerando isto, tudo precisa estar conectado. E ainda, os termos específicos utilizados e seus significados, isto é, a maneira como definimos cada um deles, é que vai manter essa ligação.

Quando um mesmo conceito teórico tem vários termos e definições, como acontece neste campo hoje, se torna muito mais difícil estabelecer um link real entre evidências, estratégias e avaliações, simplesmente porque estamos falando sobre coisas diferentes e iguais ao mesmo tempo e generalizando os resultados para tudo.

O termo “autocontrole”, por exemplo, significa o mesmo de “autogestão”, “regulação emocional”, “autorregulação” ou “conscienciosidade”, ou não? Em cada um desses casos, os resultados, estratégias e recursos de avaliação precisam estar associados a definição adotada e pode não ser apropriado para outras definições que, embora pareçam similares, significam outras coisas.

Pensa direitinho: quando vemos uma pesquisa falando sobre “autocontrole”, o que exatamente ela está nos informando? O que significa isso em comportamentos práticos?

E mais… Para que exatamente ele está sendo eficaz e em qual contexto específico, tanto de definição como de estratégias utilizadas para desenvolvê-lo?

Quando não damos sentido às palavras, acabamos interpretando mal, generalizando demais ou ignorando a ciência que conecta evidências a estratégias e estratégias de medição com avaliação. O resultado pode ser desastroso, especialmente no campo educacional.

Em síntese, a tradição ou estrutura de pesquisa na qual a abordagem está ancorada informará necessariamente com quais definições utilizadas, quais habilidades serão desenvolvidas e quais resultados esperar.

É importante destacar que as estruturas “não-cognitivas” disponíveis variam em quão específicas e inclusivas são suas definições. Isso não é em si um problema; diferentes estruturas são projetadas para servir a diferentes propósitos e essa diversidade é até saudável em pesquisas, o problema é a falta de transparência sobre essas diferenças. É como se dentro da área os conceitos parecessem meio embaçados, sabe? Ninguém sabe exatamente do que estamos falando.

Foto: Ave Calvar Martinez – Pexels

Para ajudar na solução, a Universidade de Harvard criou um sistema que conecta frameworks entre si, permitindo a identificação de similaridades e diferenças entre eles, fornecendo assim mais transparência e precisão para realização de pesquisas na área.

No processo, eles buscaram respeitar a integridade de cada modelo e deixar muito explícito seu significado e links para checagem das fontes. Atualmente, o projeto conta com 40 frameworks registrados, com possibilidade de comparações diversas, além de conseguirmos checar a porcentagem do quanto cada um foca em domínios específicos (como emoções ou valores, por exemplo).

A ideia dos pesquisadores é tornar essas conexões claras para estudiosos, formuladores de políticas e profissionais da área.

Tudo que tem lá tá perfeito? Honestamente, não.

Conhecendo alguns frameworks por dentro e empresas que trabalham na área eu percebo que a prática é um pouco diferente do que está lá. Até porque tem muita gente trabalhando com o tema que nem sabe dessas nuances e especificidades teóricas. Fora que por ser uma área nova temos que ter paciência em ir organizando e sistematizando aos poucos, né?

Maaaaas, é inegável o trabalho FANTÁSTICO que eles estão fazendo para tentar organizar teoricamente a área, e isso certamente irá se refletir em práticas melhor embasadas, pelo menos é o que eu espero!

Dá um conferida lá, quando descobri esse projeto no início do ano eu passei alguns dias imersa fazendo simulações e conhecendo diferentes perspectivas deste campo tão lindo, abriu meu mundo e espero que abra o seu também: clique aqui para acessar.

Você, que trabalha na área, já conhecia essas informações?

E você, que não trabalha na área mas muitas vezes tem contato com esses temas, o que achou de conhecer estes aspectos?

As informações colocadas neste artigo foram retiradas dos materiais disponíveis no próprio site e por meio do artigo: What is the same and What is different? Making sense of the “non-cognitive” domain: helping educators translate research into practice.

Este texto foi produzido a partir de uma reflexão feita nos Stories do Emociona-te, segue lá a página se quer acompanhar mais reflexões neste sentido!

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